5 anos do 1º caso de Covid-19 em Itapira: Dr. Marcelo fala dos desafios impostos
Há exatos cinco anos, na tarde do dia 31 de março de 2020, a Secretaria de Saúde de Itapira confirmava, na verdade, os dois primeiros casos positivos de coronavírus (Covid-19). Tratava-se de um homem de 77 anos internado na UTI da Santa Casa e outro, de 34 anos, profissional de saúde, que estava em quarentena em casa.
Começava aí, de forma oficial, a história desta doença traumatizante na cidade.
Não demorou muito e a primeira morte também foi anunciada, já no dia 03 de abril. Tratava-se de uma mulher de 76 anos moradora de outro município que estava internada na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do Hospital Municipal.
Com o surgimento dos casos, as autoridades médicas da cidade decidiram pela implantação de uma comissão de situação do Covid 19, sendo uma Câmara Técnica e Administrativa, formada por membros da infectologia, clínica médica e hospitalar, e a partir daí foram traçados os planos a serem seguidos.
O médico Marcelo Hendrigo Cesto foi neste período alçado ao posto de coordenador da Câmara Técnica e se tornou o ‘rosto oficial’ da batalha contra essa doença.
Por seu jeito extremamente sincero, incisivo e absolutamente técnico, Dr. Marcelo caminhou sob o fio da navalha ao longo de sua atuação, tendo que lidar com a novidade assustadora da doença, a desinformação e o medo que já assolava a cidade.
Quando as ‘temidas’ lives comandadas pelo médico iam ao ar, a angústia e a esperança faziam parte da rotina dos itapirenses. Foram muitas notícias tristes, mas muitas boas ao longo do tempo.
Dr. Cesto passou por dois governos municipais antagônicos, Paganini e Toninho Bellini, e soube como poucos separar a parte política da saúde pública.
Certamente ganhou ‘inimigos’ na jornada e também muitos amigos, mas deve trazer até hoje em sua memória as demonstrações de gratidão e carinho que tantos outros lhe dirigiram. Exemplo maior foi, tempos depois da pandemia, quando encontrou com uma mulher, cuja sobrinha tinha tido um filho naquele período e colocou o nome de Marcelo, em homenagem ao médico que ela aprendeu a admirar durante a condução da saúde pública em Itapira.

Ele recebeu com exclusividade a reportagem de A Gazeta e contou um pouco sobre o período mais incerto que a humanidade viveu nos últimos 100 anos.
“Quando a doença começou a se alastrar em países como China, Itália e Estados Unidos foi emitido um alerta pela Organização Mundial de Saúde para todos os países e a gente já sabíamos que iria chegar ao Brasil pois a transmissão é muito alta. Começamos a seguir todas as diretrizes que vinham do Ministério da Saúde e da Secretaria Estadual de Saúde e a partir daí começamos a conversar, a ver que caminho iríamos seguir. Porque até então não tínhamos dados de nada, pois era um vírus desconhecido, com mecanismo de ação ainda em estudo, a gente não tinha ideia de como seria o comportamento em grupo de risco, como idosos, gestantes, pessoas com doenças crônicas, autoimunes e também as crianças, que já estavam tendo atenção especial”, lembrou Dr. Marcelo.
Para tentar seguir um caminho que desse um norte, de como lidar com a doença, o médico destacou a importância de estudos e debates com profissionais de medicina de outros estados e também países, como Estados Unidos, Inglaterra e Itália, que já estavam encarando a primeira onda de Covid-19: “tudo era discutido nestes congressos on line, publicações, intubação no momento certo, quanto que iria usar de corticoide, antibióticos, quais eram os aspectos morfológicos e patogenicidade do vírus identificados até o momento, como era essa estrutura viral, era tudo novo”.
Ele destacou também que Itapira sofreu muito com as variantes Gama e Delta, período em que ocorreram mais casos e mais mortes, logo neste começo.
Sobre a ‘tática de guerra’ montada em Itapira, o médico foi claro: “Nada foi inventado, nada foi de sopetão, foi tudo um escalonamento. Fazia o plano A, já com o plano B montado. Tem o plano B e se falhar ou sobrecarregar o B, tem o C, junto com as a dificuldades técnicas como, falta de respiradores, escassez na produção de medicamentos que também aumentaram de preço absurdamente, entre outras”, frisou Dr. Marcelo.
Na cidade o primeiro caso confirmado foi de um homem que havia estado em um cruzeiro marítimo, juntamente com outros itapirenses. “Logo depois mais duas pessoas que estavam no navio apresentaram a doença, aí começamos a fazer o rastreio, inicialmente através da agência de viagem, lista de passageiros, e depois veio o isolamento e quarentena, conforme protocolos do Governo, tudo pra tentar segurar a transmissão”, lembrou.
Depois daí começaram a aparecer mais casos que não tinham nada a ver com o cruzeiros ou viagens: “tivemos que reestruturar o hospital de cima pra baixo, remodelando a estrutura hospitalar, o segundo andar foi arquitetado só para Covid-19, depois tivemos dois pronto-socorros atendendo simultaneamente, pois as outras doenças não pararam. Tivemos o apoio fundamental da Rede Básica de Saúde que nos ajudou muito”, pontuou.
Questionado sobre o momento mais marcante que passou ao longo do período da doença, Dr. Cesto não titubeou em lembrar: “foi durante o pico de 2021 e 2022 quando o hospital aqui estava todo lotado desde o pronto socorro, leitos até a UTI, aquela cena que parecia cena de guerra, pessoal com dificuldade de entregar a medicação para os hospitais, briga constante por insumos. Cheguei a desenvolver junto com pessoal da Engenharia do Laboratório Cristália uma tenda respiratória com filtros e pressão negativa para poder transitar com o paciente isolado para fazer tomografia e pelos setores hospitalares. Vimos de tudo aqui, cenas que me marcaram para sempre. Quando você olhava uma tomografia na mão e já tinha uma noção de que seria a evolução para um caso complicado, uma doença muito dinâmica de comportamento súbito também, até o de uma pessoa que achávamos que não iria ter melhora e saia do covid. Vi de tudo. O pior momento era quando você tinha que dar a notícia para a família da morte do ente, era muito triste. Nós perdemos colegas médicos como o Dr. Luiz Otávio, o Dr. Jorge Felipe, este um cara que tava na linha de frente da batalha contra a doença”.

Mas após a tormenta, veio a calmaria.
“A partir de 2023 a situação começou a mudar, muito pela campanha de vacinação já iniciada anteriormente atendendo a população de forma ampla. AÍ tivemos a certeza de que tudo iria melhorar, que tudo voltaria ao normal, ou melhor ao ‘novo normal”, destacou Dr. Marcelo.
Questionado sobre a lição que tirou de tudo isso, o médico abriu seu coração: “tem que valorizar quem está do seu lado, sua família e seus filhos. A minha rocha, foi minha esposa. Ela vivia preocupada se eu iria voltar pra casa, se eu adoeceria. Nós da Saúde fizemos todos um juramento, eu tinha um dever com o munícipe de Itapira, eu tinha um dever como médico e funcionário público de Itapira, a questão não é seu quero atender ou não. Eu devo atender. Estou há 14 anos aqui e me considero um cidadão itapirense.
Ainda no balanço do tempos de incertezas causados pelo Covid-19, Dr. Marcelo fez questão de destacar a participação de toda a Secretaria de Saúde Municipal: “foram guerreiros que lutaram sem parar ao longo da pandemia, sem descanso. Quero destacar também os membros da Câmara Técnica, como a Dra. Natascha Gato Vidale, Dr. Humbertinho e Dr. Abraão, diga-se de passagem do Dr. Carlos Humberto Póvoa foi peça essencial neste processo, de um conhecimento absurdo; a Dra. Natascha como diretora técnica, que estava grávida, dando todo o suporte necessário e ainda atendendo ao Covid. A estrutura que Itapira teve foi privilegiada, foi um das primeiras cidades a se tomar posicionamento e se preparar para o que estava por vir, chegamos a ter a terceira maior estrutura do interior do estado de São Paulo, ficando atrás apenas de Campinas e Piracicaba”.

Medo em família
Se já não bastasse tudo o que passava em seu dia a dia profissional, Dr. Marcelo tinha dentro de casa mais uma situação preocupante: sua esposa estava grávida.
“Os dados e estudos iniciais das gestantes eram muito preocupantes, com risco de gravidade, porque afetava muito o sistema metabólico da gestante, minha esposa é médica, especialista nesta área e ela tinha acesso a todas as informações da doença. No início, chegava em casa e entrava por fora, deixava a roupa toda lá e tomava uma ducha, para só depois entrar e tomar outro banho. Meu primeiro filho quando eu ia visitar ele na casa dele, era aquele choro, porque não podia pegar ele, fiquei casa 3 meses sem poder estar com ele, foi terrível pra todo mundo, sem exceção. A questão do isolamento marcou demais, porque as pessoas perceberam o quanto precisavam de socialização, principalmente as crianças, mas era necessário porque senão o número de casos seria muito mais elevado”.
Enfermagem foi primordial
Além do trabalho do aparato de aproximadamente 60 médicos que a Rede Municipal contou naquela época, outro setor também teve papel fundamental: a enfermagem.
Ele também tinham contato direto e diário com os pacientes fato que colocava cada membro do setor em alto índice de contágio.
Monica Eliane Cobra tem 20 anos de Hospital Municipal e viveu intensamente o período de pandemia na cidade: “foi muito difícil, o Covid passou a atropelar a gente, tanto que aqui na cidade nós fomos os primeiros a atender pacientes com esta doença já que num primeiro momento a Santa Casa deixou de atender, eles ficaram somente com as outras doenças e agente ficou com toda parte respiratória do município todo. Então todo paciente com alguma suspeita ou confirmado vinha pra cá. A gente foi caminhando e aprendendo assim que o Ministério e Secretaria Estadual soltava uma diretriz e a gente seguia, fomos aprendendo com a doença”.
A enfermeira lembrou também dos momentos difíceis impostos pela doença na relação paciente/família: “essas pessoas ficaram isoladas e não tinham nenhum contato com a família, o único contato era com a equipe de enfermagem. O setor de enfermagem passou a fazer também o de copa, de servir os pacientes, naquela época não era possível eles fazerem, tudo ficou pra enfermagem. O paciente passava todo o tempo com a gente”, lembrou.

Sobre o que ela leva para a vida após todo esse período de trevas, a enfermeira Mônica destacou: “foi um desgaste muito grande, uma pressão muita grande. Era um sofrimento muito grande, foi um trauma. Quando um paciente sai de alta fazíamos festa, tinha até bexigas, depois vieram as vacinas, aí tudo começou a melhorar”.
“Foram vários casos que marcaram. Tem uma senhora que é dona de uma padaria na cidade que achávamos que não iria conseguir, mas conseguiu. Tem uma outra que me reconheceu pelos olhos e veio me agradecer, isso é muito gratificante”, lembrou.
Morte e novos protocolos
Infelizmente nossa cidade assistiu ao falecimento de 368 pessoas de todas as idades e classes sociais. A doença foi impiedosa.
Jácomo Brioschi Neto há 30 anos atua na Funerária Itapirense e, entre os anos da Covid-19, viu sua profissão virar de cabeça pra baixo: “foi diferente de tudo que a gente conviveu até então dentro do ambiente do serviço funerário. A questão do número de funerais aumentou muito, passando de um para quatro às vezes cinco por dia. O caso da família enterrar o pai num dia e três dias depois enterrar a mãe. Teve o caso de uma família que estava fazendo a papelada da mãe e o hospital ligou informando que o pai havia morrido também”, relembrou.
Para ele outra mudança drástica se deu em função da logística: “a gente chegava no hospital e pegava o corpo que estava em um saco de remoção fechado e colocava no caixão, era o protocolo do governo. Muitas vezes enfrentamos a revolta da família, que tinha razão, porque o parente entrava no hospital e saia em um caixão lacrado, com a família não podendo se despedir e nem velar, mas eram normas que tínhamos que seguir. Quando chegava no cemitério era só o pessoal da funerária, os coveiros e a família vendo tudo à distância. Muitos entendiam, mas outros queriam ver de todo jeito, mas não podia”.
Como ocorreu em vários setores, no funerário não foi diferente: tudo subiu de preço e muita coisa sumiu do mercado: “tudo aumentou, desde uma simples máscara até as urnas funerárias. Teve uma época que não tinha determinado tipo de urna, por exemplo a que usamos nos planos nossos muitas vezes não tinha disponível, ligávamos em várias fábricas e não tinha. Além de ficar mais caro e sumir do mercado, ainda tinha que pagar a vista, acabou até o prazo. Exigia avental especifico e não tinha, se tinha era muito caro”, disse o empresário.
“Foi uma coisa diferente de tudo que vi na vida e não digo só no nosso serviço, mas em tudo, ver as pessoas passando de máscara, não poder se tocar. Uma coisa que espero nunca mais ver”, finalizou.

Os números da Covid-19 em Itapira
No último Boletim de Monitoramento Covid-19 os números dão uma dimensão do que foi a passagem dessa doença por nossa cidade:
59.596 notificações
22.243 casos confirmados
368 mortes
21.875 recuperados