Coluna ‘Traço Feminino’, por Hellen Santos
As mulheres cuidam com afeto, responsabilidade, coragem e com tantas outras qualidades que fica difícil de descrevê-las. Quem já não foi cuidado por uma mulher, mãe, avó, tia, prima, irmã, cunhada que atire a primeira pedra.
A grande pergunta que se tem feito é, quem cuida delas? É um fato que esse assunto esbarra em alguns pontos super importantes, que são eles: a divisão sexual do trabalho, a saúde da mulher e a invisibilização do trabalho feminino.
Existe um pacto socialmente construído sobre a mulher exercer o papel do cuidado, isto está entrelaçado com outras esferas que existem na nossa sociedade, temos a economia, a política, a relação social em que vivemos, o que faz fortalecer a ideia, ou melhor, o imaginário que as mulheres nasceram para fazer isso.
Não estou dizendo que as mulheres não possam desempenhar esse papel ou que elas não queiram desempenhá-lo, mas sim, uma desconstrução de uma percepção impositiva que as obrigam a fazer e que não as deixam alternativas, mesmo que em detrimento ao seu trabalho, estudos ou aos seus compromissos já existes.
Essa imposição que as mulheres sofrem, que é a divisão sexual do trabalho, as prejudicam muito, pois se trata de uma injustiça social e a cultura brasileira em especial, reforça os papéis sociais excludentes.
Pensemos nas mães, quando os filhos estão doentes, mesmo que elas trabalhem fora e o seu companheiro também, será ela que irá necessitar faltar no trabalho. Essa situação faz com que na maioria dos casos exista a dificuldade de encontrar um trabalho para as mulheres que tenham filhos pois, um dos motivo será o cuidado que desempenha com eles, dentro dessa lógica excludente que nos acompanham, reforça a ideia de sejamos vistas como quem não irá conseguir ter responsabilidades no trabalho, pelo cuidado que desempenha com os filhos.
Os homens por sua vez, não encontram problemas para encontrar um trabalho, mesmo quando relatam que tenham filhos, pois já está determinado nos papéis sociais que quem ficará com os filhos será a mãe, a avó , a tia, a irmã , qualquer outra mulher que ele tenha em seu meio familiar, e isto não é sequer levado em consideração para a recusa de um trabalho.
Essa é uma ideia enraizada e que exclui a mulher e beneficia ao homem, mesmo que os dois tenham a mesma responsabilidade com os filhos mediante a lei constitucional.
Outro fator muito importante é que a saúde da mulher deveria ser cuidada de forma completa, considerando o seu estado físico, mental e social. As mulheres cuidam de todos, mas não tem tempo para cuidar de si mesmas, se apagando dos cuidados que elas deveriam receber, para desempenharem os muitos papéis que transitam.
Essa invisibilização do trabalho que as mulheres executam, cuidando de todos a sua volta e na sua casa, necessita de muito diálogo e políticas públicas que rompam com esse pensamento que recaem na mulher todo o cuidado com todos, e que possam ampará-las e transformar o contexto vivido.
Cuidar é nobre, é afeto e é vontade, com responsabilidade e compartilhando de tarefas. Há de se pensar que cuidar exaustivamente e sem ajuda irá adoecer a mulher, tira-lhe as forças, pesar-lhe na alma e distribuir-lhe em seu físico e mental.
As mulheres negras vivem um quadro ainda mais agressivo quando falamos de quem cuida delas. As consequências que elas passam são extremamente negativas em saúde e bem estar, com menor expectativa de vida, e uma maior incidência de transtornos mentais.
A necessidade de se ter espaços específicos para as mulheres negras receberem uma escuta ativa e com empatia, onde possam ter acolhimento e terem suas narrativas e singularidades validades, se faz urgente.
Se as mulheres negras ou brancas adoecem, precisarão de outras mulheres para ajudá-las em sua recuperação, mas na maioria dos casos, elas não tem essas outras mulheres, que já estão cuidando dos seus, e seu companheiros por não “poderem” ajudar, as deixam sem apoio e sem cuidados.
A educação, conscientização e prevenção e o acesso aos tratamentos, a assistência, são essenciais para que as mulheres possam ter o cuidado que merecem e precisam, e que a desconstrução de que só elas possa exercer o cuidado seja feita, progressivamente para que os homens também executem em maior número os mesmos cuidados, entendendo que essa divisão não deva ser por gênero, mas por amor !
“Que nós mulheres sejamos cuidadas quando precisamos, sem culpa, sem medo e sem recusa. Ser cuidada é essencial e nós merecemos!”
Por: Hellen Santos